domingo, 26 de abril de 2015

Deixe-me viver!

Deixe-me viver!


Uma mãe põem um filho no mundo, cuidando para que possa crescer
Mas na rua um homem de farta espanca, humilha e mata
E não deixar viver
Olha para estes olhos rasos d'água
Pedindo
Deixe-me viver!
Olha!
Homem de farda!
Não me espanque
Não me humilhe
Deixe-me viver
Seu olhar que grita por amor
Em um mundo doente
Surdez?
Ele somente pede a ti
Homem de farda
Não me oprima
Deixe-me viver!

eu

quinta-feira, 19 de março de 2015

Veja 10 tecnologias emergentes que 'mudarão o mundo'.


Quais tecnologias emergentes tem o maior potencial de mudar o mundo? O Fórum Econômico Mundial, que reúne anualmente 18 especialistas para responder a esta questão, listou 10 inovações que podem mudar nossas vidas, transformar indústrias e proteger o planeta. "Ao fazer isso, buscamos chamar atenção para estas tecnologias e preencher as lacunas de investimentos, regulamentação e compreensão pública, que muitas vezes são barreiras para o progresso", afirma o fórum.

A seguir, saiba quais são elas:

1. Carros movidos a hidrogênio

O fórum reconhece que estes veículos são uma promessa de longa data, mas diz que "só agora a tecnologia parece ter chegado ao ponto no qual montadoras planejam incorporá-la em lançamentos para consumidores". Carros a hidrogênio têm algumas vantagens em relação aos atuais modelos, movidos a gasolina, álcool, diesel ou eletricidade. Nos carros elétricos, é preciso recarregar suas baterias a partir de uma fonte externa de energia. Já as células de combustível geram eletricidade diretamente, usando combustíveis como hidrogênio ou gás natural. Esta energia fica armazenada nas baterias. Isso permite que eles percorram grandes distâncias, como veículos movidos a combustível – o que não ocorre com os modelos elétricos, que ainda têm uma autonomia limitada. Além disso, a recarga de uma célula de gás de hidrogênio comprimido leva apenas cerca de três minutos. Por fim, o uso de hidrogênio como combustível não gera monóxido de carbono, como ocorre com carros comuns, mas vapor d'água, o que ajuda a reduzir a poluição no ar. Mas ainda há dois obstáculos: produzir hidrogênio barato em larga escala e criar uma infraestrutura para distribuí-lo à população. "O transporte de hidrogênio por longas distâncias, mesmo que comprimido, ainda não é considerado economicamente viável hoje em dia", afirma o fórum. "No entanto, técnicas inovadoras de armazenamento logo reduzirão este custo e os riscos associados a esta prática". O fórum espera que, em uma década, milhões de veículos movidos a hidrogênio estejam em uso.

2. Robótica

Outra tecnologia que há muito tempo se faz presente no imaginário coletivo, a robótica tem passado por avanços que estão permitindo que finalmente deixe de estar confinada a fábricas e outras tarefas simples. "Sensores melhores e mais baratos permitem que robôs sejam capazes de compreender e responder ao ambiente em torno dele. Seus 'corpos' estão se tornando mais adaptáveis e flexíveis", afirma o fórum. "E eles estão mais conectados, beneficiando-se da computação em nuvem para acessar e processar informações remotamente, em vez de terem que ser inteiramente programados para realizar uma tarefa autonomamente". Com isso, os robôs estão assumindo uma variedade de tarefas, como um controle preciso de pragas em plantações e sua colheita ou cuidando de idosos e pacientes, inclusive na sua reabilitação física. Além disso, robôs menores e mais habilidosos estão não apenas realizando tarefas repetitivas em fábricas no lugar das pessoas, mas também colaborando com humanos em vez de substituí-los. "O medo de que robôs conectados à web possam fugir do controle se tornará mais proeminente, mas, conforme estas máquinas realizam tarefas domésticas e as pessoas se familiarizam com elas, esse receio deve ser amenizado", afirma o fórum.

3. Plástico 'thermoset' reciclável

Ao contrário dos termoplásticos, que podem ser aquecidos e reaquecidos para adquirirem diferentes formas e serem reciclados, os plásticos "thermoset" só podem passar por este processo uma única vez. Isto confere durabilidade a este tipo de plástico, tornando-o uma parte importante do mundo atual, com seu uso em celulares, computadores e aeronaves, mas também faz com que seja impossível reciclá-los. Mas, em 2014, houve avanços significativos nesta área, com a descoberta de uma nova categoria reciclável de plásticos "thermoset", com o uso de ácido para quebrar a cadeia de polímeros que os forma e os reutilizar na fabricação de novos produtos, mantendo suas características mais úteis, como a rigidez e a durabilidade. "Apesar de nenhum processo de reciclagem ser 100% eficiente, esta inovação – se for empregada amplamente – pode gerar uma grande redução no lixo descartado", destaca o fórum. "Esperamos que este novo tipo de plástico 'thermoset' substitua o antigo em cinco anos e se torne onipresente em bens fabricados por volta de 2025".

4. Engenharia genética agrícola

A engenharia genética gera uma grande polêmica, mas o fórum defende que "novas técnicas permitem 'editar' o código genético de plantas para torná-las mais nutritivas ou resistentes às mudanças climáticas". Atualmente, a engenharia genética de cultivos agrícolas depende de bactérias para transferir uma parte de DNA para outro genoma, algo que já foi comprovado ser tão arriscado (ou seguro, de acordo com o ponto de vista) quanto realizar esta transferência por cruzamento de espécies. "No entanto, técnicas mais precisas de edição genética foram desenvolvidas nos últimos anos", afirma o fórum. Elas conferem às plantas uma maior resistência a pragas e insetos, reduzindo a necessidade de uso de pesticidas, e aumentam a sustentabilidade de cultivos ao reduzir a necessidade de água e fertilizantes. "Muitas destas inovações serão particularmente benéficas para agricultores de pequeno porte de países em desenvolvimento. Assim, a engenharia genética pode se tornar menos controversa, à medida que seu benefício seja reconhecido para aumentar a renda e melhorar a dieta de milhões de pessoas".

5. Manufatura aditiva (impressão 3D)

Hoje, a fabricação de produtos começa por um grande pedaço de determinado material, como madeira, metal ou rocha, e passa pela remoção de camadas até atingir a forma desejada. Por sua vez, a manufatura aditiva – também conhecida como impressão 3D – parte do zero e aplica camadas do material até atingir a forma final, usando um modelo digital como guia. "Produtos fabricados assim podem ser altamente personalizados para cada usuário, ao contrário de produtos feitos com processos de fabricação em massa", esclarece o fórum. Além disso, usando células humanas como material básico, esta técnica permite criar tecidos orgânicos que podem ser usados no teste de segurança de medicamentos, além de transplantes. "Um próximo estágio importante da manufatura aditiva seria fabricar desta forma componentes eletrônicos, como placas de circuitos", destaca o fórum. "Esta ainda é uma tecnologia nascente, mas deve se expandir rapidamente na próxima década com oportunidades e inovações que a aproximarão do mercado de massa".
 

 

6. Inteligência artificial

Nos últimos anos, a inteligência artificial evoluiu bastante, com smartphones reconhecendo a voz de seu dono, carros que dirigem a si mesmos ou drones. Hoje, esta tecnologia faz com que uma máquina reconheça um ambiente a sua volta e reaja a ele. "Mas estamos dando um passo à frente com máquinas capazes de aprender autonomamente ao assimilar grandes volumes de informação", diz o fórum. "Assim como os novos robôs, esta inteligência artificial nascente levará a um aumento significativo de produtividade. Máquinas com acesso rápido a uma imensa fonte de dados poderão responder a situações sem cometer erros com base em emoções, como no caso de diagnóstico de doenças". O fórum reconhece que esta tecnologia tem riscos atrelados a ela, como máquinas superinteligentes que um dia poderiam suplantar a humanidade. "Especialistas levam este receio cada vez mais a sério, mas, por outro lado, isso pode tornar ainda mais evidente a importância de atributos essencialmente humanos, como criatividade e relações interpessoais".

7. Manufatura descentralizada

Este tipo de fabricação de produtos muda completamente a noção que temos hoje da manufatura. Em vez de reunir todo o material necessário para fazer um produto em um único – e enorme – local e depois distribuí-lo ao público, a manufatura descentralizada distribui a fabricação de diferentes partes do produto por diversos locais. E o produto final acaba sendo montado muito próximo de onde consumidor está. "Na prática, isso substitui a cadeia de fornecedores de materiais pela informação digital. Em vez de fazer uma cadeira em uma fábrica central, fábricas menores e locais recebem instruções de como fazer suas peças, que podem ser montadas pelo próprio consumidor ou em oficinas", esclarece o fórum. "Isso permite usar recursos de forma mais eficiente, com menos desperdício, diminuindo o impacto ambiental. Também reduz a barreira de entrada para novas empresas num mercado ao diminuir a quantidade de dinheiro necessário para criar um protótipo e fabricar produtos". O fórum defende que esta nova técnica de fabricação mudará o mercado de trabalho e a economia da manufatura, mas também apresenta riscos, por ser mais difícil de regular. "Nem tudo poderá ser feito desta forma. Cadeias de produção ainda serão necessárias para bens de consumo mais importantes e complexos".

8. Drones inteligentes

Drones são usados amplamente nos dias de hoje, na agricultura, no cinema e em outras aplicações que requerem uma vigilância aérea ampla e barata. "Mas, até agora, eles têm pilotos humanos, que os controlam a partir do solo", explica o fórum. "O próximo passo é desenvolver máquinas que voam por conta própria, o que permite uma série de novos usos". Para isso, os drones precisam ser capazes de usar sensores para reagir ao ambiente a sua volta, mudando sua trajetória e altura de voo para evitar colisões com outros objetos em seu caminho. Isso permitirá que estes robôs assumam tarefas perigosas para humanos, como manutenção de redes elétricas. Ou realizar entregas de medicamentos urgentes mais rapidamente. Na agricultura, poderiam auxiliar no uso mais preciso de fertilizantes e água ao analisar plantações desde o ar. "Com esta tecnologia, os drones poderão voar de forma mais próxima a humanos e em cidades", destaca o fórum. "Mas, para serem amplamente usados, eles terão que se provarem capazes de voar em meio às mais difíceis situações, como em tempestades de areia e nevascas. Quando isso ocorrer, eles nos tornarão imensamente mais produtivos".

9. Tecnologia neuromórfica

Ainda hoje, os mais avançados computadores não conseguem superar a sofisticação do cérebro humano. Estas máquinas funcionam de forma linear, transferindo informação entre chips e um processador central por meio de uma rede. Já um cérebro funciona de forma totalmente interconectada, com uma densidade de conexões que superam em muito a de um computador. Mas cientistas já trabalham na criação de chips neumórficos, que simulam a arquitetura cerebral e aumentam exponencialmente a capacidade de um computador processar informações e reagir. "Uma limitação da transferência de dados entre uma memória e um processador central é que isso usa grandes quantidades de energia e gera muito calor", afirma o fórum. "Chips neumórficos são mais eficientes neste aspecto e mais poderosos, funcionando como uma rede de neurônios". O fórum acredita que esta tecnologia, em estágio de protótipo em empresas como a IBM, é a próxima etapa da computação de ponta e permitirá um processamento de dados mais ágil e potente, abrindo caminho para máquinas aprenderem por conta própria. "Computadores serão capazes de antecipar e aprender, em vez de apenas reagir de acordo com a forma como foram programados".

10. Genoma digital

O primeiro sequenciamento do genoma humano levou muitos anos e consumiu dezenas de milhões de dólares, mas, hoje, isso pode ser feito em minutos por algumas centenas de dólares. "Essa habilidade de desvendar nossa genética individual promete levar a uma revolução, com serviços de saúde mais personalizados e efetivos", defende o fórum. Isso porque muitos dos males que enfrentamos derivam de um componente genético. Com esta digitalização do DNA, um médico poderia, por exemplo, tratar um câncer de acordo com a composição genética do tumor. O fórum ressalta, no entanto, que, assim como toda informação pessoal, será necessário proteger o genoma de uma pessoa por motivos de privacidade.

"Mas os benefícios provavelmente superarão os riscos".

quarta-feira, 18 de março de 2015

Poema da Criação


Existem certas pessoas carente de entendimento,
Que acham que não foi Deus que Criou o Casamento,
A principio lhes parece que não foi conveniente,
Unir dois seres avessos, de fato, bem diferentes,
Mas nós que somos cristãos e temos boa memória,
Sabemos muito bem como surgiu essa história,
Adão andava ocupado trabalhando com capricho,
Se esforçando o dia inteiro, pensando em nome de bicho,
Era tigre, porco, tatu, macaco, alse, leão,
Adão andava inspirado, e foi mesmo abençoado, com tanta Imaginação,
Mas é possível que o sujeito também tenha reparado,
Que todo animal macho tinha uma fêmea do seu lado,
E Deus por demais atento, sondando-lhe  o coração,
Decidiu que era preciso dar um fim a solidão e disse-lhe:
- Adão filho querido não quero te ver tão só;
Falhei por companheira uma joia de primeira da costela e não do pó.
E pondo Deus em ação aquilo que pretendia,
Nocauteou nosso Adão dando inicio a cirurgia,
E Deus cortou-lhe o osso pondo carne no lugar,
E assim fez a princesa, esperando ele acordar,
Quando o varão despertou daquele sono pesado,
O corte da cirurgia já tinha cicatrizado,
E Deus trouxe a varoa e a entregou à Adão,
E ouviu um brado de Glória e a seguinte exclamação,
- Ela é carne da minha carne, Ela osso do meu osso,
E adão foi pra galera e vez aquele alvoroço,
E a partir daquele dia o homem bem mais ocupado,
Deixou pra trás muitos bichos sem o nome catalogado,
E até hoje rola um papo, bem machista e corriqueiro,
De que o homem é mais importante, porque foi feito primeiro,
Algumas mulheres se irritam e afirmam de arma em punho,
Que a vinda da obra prima vem sempre após o rascunho,
Mas há homens que falam e mesmo quem acredite
Que Deus fez Adão primeiro para Eva não dá palpite,
Mas isso é irrelevante pro sucesso da vida a dois,
Pra ser feliz não importa quem veio antes ou depois,
Porque Deus fez tudo perfeito discorde quem quiser,
Mas o melhor da mulher é homem,
E o melhor do homem é a mulher.

Sidney Moraes

sexta-feira, 13 de março de 2015

O ministro de Finanças da Grécia, o euro e o bitcoin.

Dizem que o maior medo do ser humano é o de falar em público; em segundo lugar, vem o medo da morte. No caso dos economistas, o maior medo é o da deflação, seguido bem de perto do medo da inflação baixa – normalmente, algo inferior a 2% ao ano. Nada amedronta mais um economista do que a perspectiva da “espiral deflacionária”. É o Primeiro Cavaleiro do Apocalipse, pois certamente precede a Peste, a Guerra, a Fome e a Morte. Então, quando o assunto é a criptomoeda bitcoin, uma das críticas mais contundentes dos economistas é a sua natureza deflacionária – com uma oferta rígida e limitada, uma economia em crescimento baseada em bitcoins seria inerentemente deflacionária. Atualmente, a tendência de baixa dos índices de inflação de preços na Zona do Euro e a suposta inflexibilidade do euro têm levado economistas a temer uma deflação e atacar a moeda única europeia com críticas similares às feitas ao bitcoin: uma moeda inflexível, capaz de gerar uma perigosa deflação. Um dos proponentes dessa ideia é o recém-empossado ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, que há até pouco tempo mantinha ativamente um blog com comentários sobre a economia no mundo pós-2008. Como agora se encontra no centro da crise fiscal da República Helênica, teve que deixar de lado a teoria – e o seu blog – para colocar em prática suas crenças. Em uma série de artigos escritos em 2013 e 2014 – que só agora ganhou notoriedade, fruto de sua nova função pública –, o economista grego avalia a moeda digital, elencando uma série de inovações e falhas e, por fim, lançando a sua própria versão de uma moeda criptográfica europeia capaz de resolver os percalços da Zona do Euro. De fato, Varoufakis parece ter compreendido o funcionamento do Bitcoin com todas as suas nuances; isso temos de reconhecer. Há até um certo fascínio do economista diante da invenção de Satoshi Nakamoto. Mas a sua fobia deflacionária o leva a rechaçar qualquer chance de sucesso do Bitcoin no longo prazo – a despeito de a criptomoeda já estar no seu sétimo ano de vida. Tratemos, então, de examinar os principais pontos levantados pelo novo ministro das Finanças da Grécia. A deflação é realmente um problema? Varoufakis aponta dois grandes riscos da deflação:
i) a potencial redução de investimento e o subsequente aumento do desemprego e
ii) a postergação das compras de bens duráveis.
 
Porém, como veremos a seguir, nenhum dos riscos é real. São ameaças imaginárias, teoricamente insustentáveis e empiricamente inexistentes – algo típico dos modelos econométricos dos economistas. Segundo o ministro, “Num cenário deflacionário as empresas podem reduzir a produção para frear a queda nos preços de seus bens finais e, com isso, acabam cortando salários e demitindo funcionários, em um círculo recessivo que nunca acaba, cujo resultado é uma demanda por seus produtos menor ainda”. Se estivéssemos redigindo um mero tweet, este seria o momento de escrever “WTF???”. Mas vamos manter a compostura e prosseguir na argumentação de Varoufakis. Além do problema acima, o economista grego alega que “devido ao intervalo de tempo entre a compra da matéria-prima e a entrega do produto final, a deflação faz com que as empresas adquiram seus insumos quando os preços médios estão acima do que quando o produto final é vendido”. Assim, conclui o ministro: “Quanto maior a taxa de deflação, menor a taxa de lucro e maior o número de empresas que precisam ou despedir empregados ou fechar por completo”. Seria então justificado o medo deflacionária de Varoufakis? Definitivamente, não. Primeiro, uma queda nos preços dos bens finais não é um sinal de problema para nenhuma empresa. Na verdade, a dificuldade começa quando há uma queda na lucratividade, o que depende não apenas do preço de venda, mas também, obviamente, da estrutura de custos de uma firma. Ademais, praticamente nenhuma empresa tem o poder de controlar o mercado unilateralmente, restringindo produção para elevar preços. Há a concorrência, que possivelmente abocanharia a fatia de mercado liberada por uma empresa. É falha, portanto, a premissa de que as empresas, em nível agregado, possam demitir funcionários para restringir o nível de produção. É mais absurda ainda a conclusão de que esse cenário leva a um círculo recessivo que nunca acaba. Ora, basta o bom senso para entender que uma recessão infinita capaz de nos conduzir de volta à Idade da Pedra não é uma suposição plausível. Varoufakis parece ignorar dois pontos importantes. É possível, sim, que os insumos antes adquiridos só possam ser revendidos por um preço menor em um primeiro momento. Mas se a premissa é de deflação contínua, o custo de repor os estoques também irá declinar. A estrutura de custos não é imune à deflação. Esse é o ponto número um, mas não é o principal. A questão fundamental é que empresas não são meras repassadoras de mercadorias que compram e revendem – embora haja, claro, modelos de negócios assim. Há o processo produtivo, cuja função é justamente a de combinar diferentes insumos e fatores de produção, transformando estes no produto ou serviço final. Se nesse processo todo o diferencial entre o produto da venda e a estrutura de custos for positivo, a empresa lucra e prospera, mesmo em um cenário de deflação. Queda nos preços de venda não é indício de falência – assim como a alta dos preços de venda tampouco é sinal de lucratividade. O primeiro risco apontado por Varoufakis, portanto, carece de fundamento; não há razão para esperar como efeitos da deflação uma queda no investimento e redução de emprego. Vejamos agora o segundo risco que inquieta o economista grego, a tal da postergação indefinida da compra de bens duráveis. O ministro reconhece o fato de que, em um cenário de deflação, tardar uma compra pode recompensar o indivíduo por “receber mais valor” pelas unidades monetárias que dá em troca. Isso não é um problema, segundo Varoufakis, quando não são todos os preços a cair de uma só vez. “O benefício oriundo da paciência nos EUA hoje”, argumenta o economista, “advém da procura ativa por um negócio melhor em um mercado em que a informação é imperfeita”. A deflação, no entanto, “recompensa a paciência apenas por sua paciência, em vez de ser uma recompensa por uma atividade de procura custosa”, conclui Varoufakis. Portanto, cuidado, caro leitor, se receber em casa um folheto com as ofertas da semana; você pode estar, inadvertidamente, gerando um grave transtorno macroeconômico. Esse é o corolário da afirmação do ministro. Para encerrar, Varoufakis revela qual a questão essencial: “Na deflação, todo mundo se beneficia da espera, e a demanda agregada, então, colapsa, penalizando a todos”. Assumindo como premissa que a tal demanda agregada existe e pode ser estimulada, não há nada que um governo ou banco central possa fazer além de injetar dinheiro na economia para “reavivar a demanda agregada”. Inflação monetária não cria magicamente nova oferta de bens serviços; ela não aumenta a produção de uma economia, apenas encarece o preço nominal dos bens e serviços produzidos no território. Política monetária é capaz de elevar a demanda nominal – emitindo moeda –, mas é ineficaz para fazer crescer a demanda real – maior oferta de bens e serviços. Bitcoin, o euro e a Grécia. De acordo com Varoufakis, o bitcoin seria uma versão hard-core do padrão-ouro porque a oferta monetária total e a taxa de emissão são pré-determinadas por meio de um algoritmo inviolável por qualquer entidade, pública ou privada. Pode ser uma boa comparação. A única razão do adjetivo hard-core é que, no caso do padrão-ouro, os governos conseguiam, com frequência, burlar as regras do sistema monetário, emitindo mais papel-moeda do que o lastro no metal permitiria. O padrão-ouro era um sistema rígido, ma non troppo, como vimos diversas vezes na primeira metade do século XX. A semelhança com o euro advém da suposta inflexibilidade política e institucional de se imprimirem euros conforme as necessidades dos países perdulários. O bitcoin é constrito pelas leis matemáticas; o euro, pelas regras institucionais e pelo jogo político. Mas assim como o padrão-ouro, o euro é inflexível, ma non troppo. Basta espernear um pouco e o Banco Central Europeu (BCE) acabará cedendo e dando vazão às demandas das nações em apuros fiscais. Prova disso é o recém-detalhado programa de compra de títulos soberanos de Mario Draghi – quantitative easing, ou afrouxamento quantitativo, ou impressão de moeda –, a ser iniciado no dia 9 de março. Sim, o pretexto utilizado é a cruzada contra a deflação. O resultado efetivo é subsidiar o refinanciamento da dívida de diversos governos da Zona do Euro. Mas o ministro da Grécia propõe uma solução interessante, pelo menos à primeira vista. Aplicar o conceito e tecnologia do bitcoin a uma espécie de moeda digital paralela nos países periféricos europeus, como a própria Grécia. Segundo Varoufakis, seria uma forma de contornar as restrições insuportáveis impostas pelo euro. Como disse, à primeira vista, parece interessante. Basta ler suas premissas básicas, porém, para concluir que o plano é falho, repleto de contradições, e, mesmo se implantado, jamais atingiria o propósito almejado. Não vale a pena esmiuçar detalhadamente o esquema de Varoufakis, mas é preciso destacar dois pontos. O ministro propõe que o Tesouro nacional emita uma moeda chamada de FT (que significa future taxes), a qual pode ser comprada pelos cidadãos pagando com euros (1 FT-coin valeria, por exemplo, € 1.000). O detentor de uma FT-coin poderia resgatá-la pelo valor de face a qualquer momento ou usá-la depois de dois anos para pagar impostos a um valor de € 1.500. Lastrear as FT-coin pari passu com os euros recebidos no câmbio é o primeiro problema. Precisaríamos confiar que o Tesouro nacional honraria sempre e a todo momento a promessa de resgatar em euros a FT-coin. Historicamente, governo algum conseguiu sustentar esse acordo por muito tempo. Ao primeiro sinal de apuro fiscal, cortava-se o lastro com o metal precioso ou o dólar – no esquema de Varoufakis, seria com o euro. A garantia de conversibilidade ao valor de face proposta pelo ministro é atraente em teoria, mas insustentável na prática. O segundo problema da moeda digital de Varoufakis é a forma pela qual ela deveria ser administrada. De acordo com o ministro, a FT-coin seria gerida por um algoritmo similar ao Bitcoin e supervisionada por uma autoridade nacional não governamental independente. Recorro novamente ao argumento acima: em um cenário de aperto fiscal, tal autoridade nacional seria certamente pressionada politicamente a agir em prol do “bem-estar da nação” – emitir moeda para pagar a conta, é claro. Quando se remove a essência do bitcoin – uma política monetária genuinamente independente, inviolável e livre de pressões políticas –, perde-se uma das principais características de uma moeda digital baseada em criptografia. A FT-coin de Varoufakis não passa de uma tentativa de introduzir uma moeda paralela com uma roupagem moderna e digital que em quase nada se assemelharia ao bitcoin. E mesmo que desconsiderássemos tais falhas da FT-coin, o esquema do ministro grego jamais atingiria os objetivos pretendidos de prover maior liquidez ao governo e debelar a deflação. Ao definir que a emissão da FT-coin obedeça uma regra pré-estabelecida e definida por uma métrica (um percentual do PIB nominal, sugere Varoufakis), a autoridade nacional incumbida da tarefa de gerir a FT-coin deveria optar entre defender as regras estipuladas ou ceder às pressões e prover liquidez ao governo. E, por fim, se a emissão de FT-coin seguir uma regra rígida, a autoridade nacional estará incapacitada de manipular a oferta monetária visando alcançar determinado índice de inflação de preços, seja ele qual for. Se Varoufakis resolver as falhas e as contradições de seu plano, ele acabará com uma dentre duas alternativas: ou uma nova moeda estatal ou uma criptomoeda baseada na tecnologia do bitcoin. Não há um híbrido possível. Ou a moeda é apolítica, ou ela está submetida aos ditames de um governo. Quando uma ideia é boa, ela não precisa ser imposta sobre a sociedade Infelizmente, não há muito que aproveitar do esquema do ministro de Finanças da Grécia. Nem para a Grécia ou países periféricos do euro, nem para o próprio bitcoin. Nenhum Estado adotará uma criptomoeda porque nenhum governo deseja se submeter às amarras de uma moeda apolítica. Yanis Varoufakis aparentemente entende e até admira a invenção de Nakamoto, mas esbarra no pânico da deflação que tanto aflige os economistas. O ponto mais positivo desse episódio não é o plano do ministro em si, mas a crescente legitimidade do bitcoin. Há alguns anos, a tecnologia era ignorada. Economistas a olhavam com desdenho. Hoje a realidade é outra. Hoje o bitcoin inspira possíveis soluções ao sistema financeiro mundial. Hoje a tecnologia por trás da criptomoeda é objeto de estudo e fascínio. Hoje, longe de ser ignorada, a tecnologia do bitcoin tende a ser imitada, aprimorada e aplicada nos mais diversos casos. Ao contrário do que pregam os economistas, a natureza deflacionária do bitcoin não é um empecilho para uma adoção maior e uso massificado. Ao contrário do que propõe Varoufakis, a tecnologia do bitcoin não pode ser – e jamais será – usada para socorrer os países periféricos da Zona do Euro. O defeito fundamental da moeda única europeia reside na sua natureza política e estatal, em que há uma autoridade monetária única para jurisdições fiscais independentes. Que os gregos saibam escolher o melhor caminho, pois não há alternativas boas. Cedo ou tarde, acabaram impondo sobre a população da Grécia uma nova moeda estatal, como o velho dracma, ou algum esquema mirabolante, como a FT-coin de Varoufakis. O consolo é que não precisarão ir a Bruxelas para protestar contra a inflação rompante que certamente virá. Quando uma ideia é boa, ela não precisa ser imposta à sociedade. Já temos uma ideia boa hoje, e a sociedade está escolhendo. Ela se chama bitcoin. Mas ela não serve para socorrer governos irresponsáveis. Ela serve para prover aos cidadãos uma válvula de escape dos abusos da moeda cometidos por quem alega estar trabalhando em prol do povo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Resumo do Significado Espiritual do Gênesis

Resumo do Significado Espiritual do Gênesis

Os seis dias, ou períodos, são todos os estados sucessivos da regeneração do homem conforme segue:
1. O primeiro estado é o que precede ao fato da existência, estando incluso neste instante de tempo o estado de infância, é o estado imediato ao da regeneração. É o estado chamado de "vazio", "vazio" e "escuridão". É o primeiro movimento da misericórdia do Grande, é "o Espírito que move-se sobre as faces das águas.". É o Zero da matemática, é o Nada e é o Tudo, é o Princípio em sua essência.

2. O segundo estado é quando é feita uma distinção entre as coisas que são do Incognoscível, e as que são próprias do homem. As coisas que são do Supremo são designados pelas Palavras "Continua a Ser", e este estado somente é especialmente conhecido pelo estado da fé, que foram aprendidas através do mais velhos, desde a infância, e que são armazenados, e não se manifestam até que o homem entre neste estado. Hoje em dia este estado raramente existe sem tentação, infortúnio, ou tristeza, por que as coisas do corpo e do mundo, ou seja, as coisas próprias do homem, são trazidos para a inquietude, como se fosse morrer. Assim, o que é devido ao homem externo são separados daqueles que pertencem ao homem interno. No homem interno estão os restos mortais, guardados pelo Eterno, até agora, e para este uso.

3. O terceiro estado é o de arrependimento, em que o homem, de seu homem interno, fala piedosamente e devotadamente, e produz bens e obras de caridade, mas que no entanto são inanimados, porque ele acha que os bens e as obras são resultados de sua inteligência e vontade. Estes bens são chamados de "tenra relva", e também a "erva que dá semente", e depois também chamada de "árvore que dá fruto."

4. O quarto estado é quando o homem torna-se influenciado pelo amor e iluminado pela fé. Ele de fato, no período anterior, discursou piedosamente, doou seus bens, mas ele fez isso em consequência da tentação e vaidade, e na angústia sob o qual ele trabalhou, e todos estes atos não foram o produto de fé e de caridade; Por isso a fé e a caridade ascendem em seu homem interno, e são chamados dois "Astros".

5. O quinto estado é quando o homem professa a sua fé, e, assim, confirma-se na verdade e no bem: as coisas que por ele são produzidas são vivas, e são chamadas de "peixes do mar", e as "aves do céu ."

6. O sexto estado é o estado da fé, e da fé por amor, ele fala o que é verdade, e faz o que é bom: as coisas que ele cria, são chamados de "alma vivente" e de "besta". E, como ele, as coisas agem de uma só vez juntamente com a fé e o amor, ele se torna um homem espiritual, que é chamado de "Imagem". Sua vida espiritual está satisfeita e sustentada pelas coisas que pertencem aos conhecimentos da fé, e às obras de caridade, e as que são chamados a sua "comida e sua vida natural está satisfeita e sustentadas por aquilo que pertencem ao corpo e os sentidos, de onde um combate surge, até que o amor o domina por inteiro, e ele se torna um homem celestial.

7. Nem todos aqueles que estão por ser convertidos chegam a esse estado. A maior parte, no dia de hoje, atingem apenas o primeiro estado alguns apenas o segundo; outros o terceiro, quarto, quinto ou; poucos o sexto; e quase ninguém o sétimo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Cientistas alemães provam que existe vida após a morte.

doctor
Uma equipe de psicólogos e médicos associados à Technische Universität de Berlim, anunciou esta manhã que conseguiu provar em experiências clínicas, a existência de alguma forma de vida após a morte. Este anúncio surpreendente é baseado nas conclusões de um estudo utilizando um novo tipo de supervisão médica na experiências de quase-morte, que permitem que os pacientes clinicamente mortos por quase 20 minutos possam ser trazido de volta à vida. Este processo controverso que foi repetido em 944 voluntários ao longo desse últimos quatro anos, necessita de uma mistura complexa de drogas, incluindo adrenalina e dimetiltriptamina, destinado a permitir que o corpo sobreviva ao estado de morte clínica e ao processo de reanimação, sem danos. O corpo do indivíduo foi então colocado em um estado coma temporária, induzida por uma mistura de drogas que tiveram que ser filtrada em ozônio através do sangue durante o processo de reanimação, 18 minutos após o estado de coma. A longa duração da experiência só recentemente foi possível graças ao desenvolvimento de uma nova reanimação cardiopulmonar (RCP) realizado pelo aparelho chamada AutoPulse. Este tipo de equipamento já foi utilizado ao longo dos últimos anos, para reanimar pessoas que estavam mortos entre 40 minutos a uma hora. Experiências de quase morte têm sido propostos em várias revistas médicas no passado, tendo como características de alucinações, mas o Dr. Ackermann e sua equipe, ao contrário, os considera como evidência para a existência de vida após a morte e representada como uma forma de dualismo entre mente e corpo. A equipe de cientistas liderados pelo Dr. Berthold Ackermann, tem acompanhado as operações e compilou os testemunhos das pessoas. Embora existam algumas pequenas variações de um indivíduo para outro, todos pessoas têm algumas lembranças de seu período de morte clínica e uma grande maioria deles descreveu algumas sensações muito semelhantes. 

Near-death experiences have been hypothesized in various medical journals in the past, as having the characteristics of hallucinations, but Dr Ackermann and his team, on the contrary, consider them as evidence for the existence of the afterlife and of a form of dualism between mind and body.

A maioria comum das memórias incluem um sentimento de desapego do corpo, sensação de levitação, total serenidade, segurança, calor, a experiência de dissolução absoluta, e da presença de uma luz imensa. Os cientistas dizem que eles estão bem conscientes de que muitas de suas conclusões poderiam chocar muita gente, como o fato de que as crenças religiosas das diversas disciplinas parece ter realizado nenhuma incidência em tudo, nas sensações e experiências que eles descritos no fim da experiência. De fato, os voluntários continham nas suas fileiras alguns membros de uma variedade de igrejas cristãs, muçulmanos, judeus, hindus e ateus.
"Eu sei que nossos resultados poderiam perturbar as crenças de muitas pessoas", diz o Sr. Ackermann. "Mas de certa forma, temos apenas respondido uma das maiores questões da história da humanidade, então eu espero que essas pessoas sejam capazes de nos perdoar. 
Sim, existe vida após a morte e parece que isso se aplica a todos. "

Traduzido de forma livre por: Edson Carvalho do Nascimento

domingo, 16 de março de 2014

Quando à morte se torna uma opção sustentada pela própria opção à vida.

"A morte é quando dividimos pelo meio e unimos pelas bordas. Vá! Vá agora! Não pare no caminho, o tempo tem pressa! A vela está acesa, e a chama ainda queima!".

Edson Carvalho do Nascimento

A morte assim como a vida é integrante da condição humana. A sociedade não está muito inclinada a considerar esses fenômenos; sente-se mais atraída pela beleza, pelo aspecto saudável e jovem do existir. Assim, qualquer questionamento ou abordagem sobre o sentido da morte deve levar em conta algumas considerações muito bem levantadas pela frase de La Rochefoucauld, "Não se pode olhar fixamente nem o sol nem a morte". A complexidade de se falar sobre a morte, é que dela não temos experiência alguma, possuímos apenas uma frágil imaginação do que é morrer. Acredito que a ausência de conceitos pode explicar, porque, a rigor a morte não é o nada. Ousaria, portanto falar da morte, mesmo ela sendo exorcizada pela nossa sociedade que se utiliza de ritos das culturas mais primitivas, em uma tentativa de refletir sobre aquilo que foi escrito ou ainda registrado pela arte em desenhos de símbolos e formas, que podem de forma indireta revelar algo sobre a nobre senhora. Se refletirmos que morte é o fim da vida, simples e sem maiores argumentações, esta afirmação aponta inexoravelmente para àquilo do qual é o fim. A morte poderá, então, ser concebida somente em relação ao seu polo contrário, a vida. Ambas são duas dimensões de um mesmo processo. A morte faz parte integrante do futuro da condição do ser e a ciência vem demonstrando que a morte e a vida se pactuam indestrutivelmente entre si patrocinando todas as mortes e todas as vidas. A razão pela qual a morte existe está proporcionalmente vinculada á necessidade da organização ou reorganização da existência, sendo que a mesma é dividida pelo centro e unidade pelas bordas. A vida está, de fato, fundada sobre uma série ilimitada de mortes. A morte de um é a vida de outro em um dualismo eterno e contínuo, no qual o débito da vida é resgatado pela morte e vice-versa, manutenindo o equilíbrio existencial da natureza. Nasce o ser como uma fortuidade existencial, e como resgate a morte é absolutamente necessária. A doença não é a causa principal da morte, mas estar vivo nos leva a morrer. O sentido da vida revela o significado da morte, e pensar em morrer implica encarar uma questão de vida, mesmo se é para determinar o modo pelo qual ela irá, poderá ou deverá realizar-se. Se há algum sentido na morte, ela se revela no significado da vida e este significado somente será entendido pelos seres conscientes. Pois mesmo percebendo a impotência diante da inexorabilidade da morte, o ser consciente tem uma vantagem e o poder extraordinário que é prolongar o término ou ainda, antecipá-lo, agindo sobre o processo. Este poder de intervenção sobre o processo de prolongar ou antecipar a morte, pelo exercício soberano da vontade, dá ao homem o direito moral de morrer ou viver. A afirmação do direito de toda pessoa em dispor de sua própria vida indica que nesta afirmação está à aceitação da legitimidade de uma assistência quando o sujeito a solicita, em toda sua lucidez. A morte e sua ambiguidade levam-nos a pensar que por detrás de seu sentido aparente, escondem-se significados latentes de que o homem, desde o pensamento mítico até o pensamento filosófico e científico, busca compreender. Neste processo, do qual temos poucos elementos que nos permitam uma interpretação segura, por causa da enorme a quantidade de representações e de concepções que se opõem e se contradizem a respeito da morte, no transcorrer da história da humanidade. O pluralismo ideológico, cultural e a secularização são fatos inquestionáveis em nossa época. Estamos em um ponto de que não dispomos de desvio para retorno, o caminho é para frente e sempre será para frente. O esforço das mais diversas culturas e sociedades em exorcizar a figura da morte tem distanciado o homem de sua natural realidade. Desde tempos imemoriais os homens têm delegado o poder de decisão sobre a sua vida e sobre a sua morte às instâncias dadas como especiais, exemplo disto à medicina, à religião e outras. O poder da medicina ao longo da história tem levantado questionamentos em relação à sua competência no cuidado com a saúde humana e a exacerbação desmesurada do exercício desse poder. O conceito de morte sempre foi um conceito médico que hoje é exigido que seja contextualizado, passando toda a problemática que concerne às condições do viver e do morrer a ser do interesse de toda a sociedade. Somos testemunhas algo especialmente surpreendente e sem precedente. Somos testemunhas das profundas mutações que vêm transformando as condições existenciais dos seres. A revolução científica moderna, com toda a tecnologia vem conquistando tão espantosa capacidade de interferência e de possibilidade de transformação dos sistemas físicos e orgânicos e do próprio ser humano, DNA, fragilizando a capacidade de prever as consequências de tais avanços. Esta revolução incapacita a sociedade em exercer o poder de intervenção no próprio avanço dos projetos tecnológicos e científicos, tão incomensuráveis que é a nossa capacidade de avanço nestas áreas. A compulsão parodóxica desse poder tecnológico, cria uma curiosa situação que tem o homem como seu criador e que o torna sua primeira grande vítima. O projeto tecnológico e científico é um fenômeno que vem provocando uma preocupante ruptura em relação às categorias éticas e estas se veem incapazes de dar racionalidade a essa nova realidade. Se a condição humana pode ser transformada, as representações e significados devem sofrer revisão, inclusive o viver e o morrer. A nova situação provocada pelas transformações criadas pela tecnologia e ciência, tem tido grande impacto sobre a compreensão da realidade humana, do processo da vida e do processo da morte. A ciência chega mesmo a definir o morrer como mera disfunção orgânica, no qual o corpo não apresenta mais as condições básicas e necessárias para aquilo que é definido como “viver”. A efetividade dos transplantes de órgãos exige que se caracterizem as condições requeridas ao doador para que se possa realizar a ablação. E muito mais, a possibilidade de suprir e manter as funções vitais por tempo quase indefinido exigiram a reconsideração sobre o problema do diagnóstico de morte. A própria aceitação do conceito de morte cerebral, definida a partir da perda da função integradora do organismo como um todo por parte do sistema nervoso central, não impediu que muitas dúvidas fossem levantadas sobre a legitimidade desse diagnóstico. Há especialistas que avançam para o conceito de “high brain criterion”, ou a teoria da morte neocortical em oposição àquela aceita como morte cerebral. Quando um indivíduo perde irremediavelmente de sua consciência, que é a base de todo o ser, a capacidade de comunicação e a sua afetividade, características identificadoras de sua personalidade, do seu "self", então este indivíduo está morto para os seus entes próximos, mesmo que seu corpo ou o corpo que o animava deva ainda ser considerado como biologicamente vivo. Em uma análise do descrito acima, vemos que se estabeleceu a distinção entre organismo e consciência que se estende para todos os seres. Afirmar que o que um organismo é um ser consciente, significa reconhecer-lhe o caráter único e exclusivo daquela vida. É esse caráter, a consciência, que transforma essa vida em existência; de simples organismo, bios, vida compartilhada com todos os seres vivos, o ser passa a um ser único, existente e consciente. Esta existência, modo de ser peculiar aos seres conscientes, confere aos seres a dignidade. Em outros termos, a vida dos seres é digna não por ser vida, mas justamente por ser uma existência, isto é vida existencial. Para algumas culturas a morte é algo ininteligível; é propriamente impensável para muitos e absurda para outros tantos. E se a morte é o fim da vida, então a consideração do direito de morrer deve estar articulada com a concepção do fim da vida e de sua finalidade. Voltamos sempre à clássica questão: porque viver? O sentido da vida está no significado da morte e o sentido da morte está no significado da vida. Epicuro em um dos seus pensamentos considerava a morte, por ser impensável, inexistente. “A morte nada é para mim!”, disse ele, “pois, se me encontro em vida, ela não existe ainda e se existe, eu já não existo.” Segmund Freud com sua teoria do principio do prazer diz que a motivação básica da vida “é o prazer”. Qualquer ação está direcionada a buscar o prazer e evitar a dor. Todas as atividades dos seres, conhecimento, arte, a natureza são meios para atingir este fim. Pascal em seus Pensamentos disse: “Todos os homens buscam ser felizes, até aqueles que vão enforcar-se”. O estoicismo pregava o esforço de uma meditação contínua cuja intenção era assegurar a soberania sobre a morte. Ficou célebre o pensamento de Sêneca: "Para não temer a morte, pense nela sem cessar". Tal soberania que será a realização decisiva e radical da razão sobre as paixões, e, por isso, sobre o destino, constitui a finalidade, a sabedoria e a felicidade da vida estóica. A paixão a ser dominada era a adesão instintiva à vida e o horror instintivo da morte. O filósofo procura um estado de alma no qual o homem, pela força da razão, pela convicção viva de que a morte não é um mal em si, teria enfraquecido tanto esta adesão instintiva que poderia decidir, tranquilamente de seu próprio viver ou morrer. Se numa situação de vida, a razão oferece motivos fortes para abandonar esta vida, o homem deve estar pronto a escolher livremente e realizar calmamente a sua própria morte. Para o estoicismo, por essência uma doutrina da liberdade, esta morte não se iguala ao suicídio, produto da paixão, e, portanto, o cúmulo da servidão. Enquanto o sofisma de Epicuro significa mais uma tentativa de escapar senão à morte, pelo menos da ideia e da obsessão da morte, a experiência estóica é a experiência de uma coragem pela qual descobrimos um fundo de esperança que subsiste quando já não há mais nada a fundar a esperança de viver. Em sua "História geral das religiões", M. Leenhardt observa que os Kanakas, índios melanésios, não representavam a morte, o seu sentido lhes era ausente. Eles possuíam a representação da perenidade da vida. Em outros termos, o vivo não se opõe ao morto. Este não passa de um outro estado, de uma outra fase do vivo. "onde vemos continuidade da vida e fissura, o kanaka vê continuidade." Esta ausência de sentimento da morte, segundo Leenhardt, está ligada à inexistência de uma sensação do próprio corpo. Kamo para o primitivo da Nova Caledônia significa "o que vive" isto é, o ser consciente. Vivos e mortos, dos deuses, os totens, os antepassados vivem de uma mesma realidade vital, que os kanakas designam por bao. Bao não é precisamente a alma, ou o outro do corpo, uma vez que o corpo enquanto tal não existe. A noção de bao estabelece a ligação entre a morte e a vida, tal como nós a entendemos. Ela anula a cisão e explica porque para o kanaka não há a ideia de destruição na morte, cfr. Leenhardt – Do Kamo. A noção de alma é desconhecida para os primitivos. De fato o caráter fundamental da noção de alma tal como muitos a concebem é a imaterialidade. Ora o primitivo pré-categorial, estado do ser humano que está desde a tenra idade até o 9 anos, não se distanciou e individualizou-se em relação às coisas, à natureza: ou não há um mundo em face do qual e em função do qual os indivíduos se afirmariam. "O primitivo, afirma Leenhardt, é o homem que não concebeu o vínculo que une seu corpo e ele próprio e permaneceu, então, incapaz de singularizar-se.", Do Kamo. O homem pré-categorial não se representa como se defrontando com a natureza, ou como indivíduo na sociedade. Para ele que ainda não tomou suas distâncias para a individualização, o equilíbrio não é centrado sobre “self”. O eu afirma-se posterior ao nós; a retomada individual sucede a experiência da unanimidade. Para ele a autonomia individual, erigida pelo pensamento ocidental como critério de valor moral, não é um dado imediato da consciência mítica. "Existir é participar", afirma Lucien Levy-Brühl. A primeira consciência pessoal é tomada no grupo e por ela é sustentada segundo seus valores, na comunidade. A individualidade aparece como um nó no tecido das relações sociais, formando, desta forma, uma teia de relações que interagem entre si produzindo transformações individuais e no meio em que vive. Fora desse tecido social, da comunidade o homem não é nada, perde seu lugar ontológico. Leenhardt afirma que a idéia de morte para os Kanakas é substituída pela ideia de abolição das relações sociais. Os Romanos tinham ideia semelhante ao "empregar como sinônimas as expressões "viver" é "estar entre os homens", “inter homines esse”, ou "morrer" e "deixar de estar entre os homens", “inter homines desinere”," cfr.Arendt,H.A condição humana p.15. Na época moderna, era das primeiras democracias emergentes, aos ideais da revolução francesa acrescenta-se um quarto que é a segurança. E a morte, mesmo para os crentes, se apresentava como a insegurança inexorável. Não é de se admirar que os indivíduos até que um dia possam vencer a morte, queiram negá-la, de certo modo, ou em termos menos radicais, mantê-la distante de seus pensamentos. A ciência moderna teria contribuído com este distanciamento face à morte ao objetivá-la. Atualmente, no hospital moderno a morte é um simples "caso" a ser discutido entre profissionais da saúde; e no laboratório, ao lado, não passa de um problema a ser analisado. Sabemos muito bem que em muitos casos os homens e mulheres morrem ou não porque se decidiu, no hospital, que sua hora havia chegado. Será que não está na hora de eles decidirem quando vão morrer? O modelo mais recente da morte está vinculado à medicalização da sociedade, isto é, a um dos setores da sociedade industrial no qual o poder da técnica foi acolhido com maior entusiasmo e com menor contestação. Algumas vozes começam surgir duvidando da "benevolência" deste modelo, tido como um dos princípios da Bioética, incondicional deste poder médico. Aqui nossa consciência coletiva poderia muito bem promover uma mudança nessa atitude questionando criticamente esse poder da medicina, cfr. Ariès –Essai sur l"histoire de la mort en Occident du Moyen Âge à nos jours. 1955 p.587. Outrora a morte era um mistério, em nossa época ela erroneamente tem se tornado um problema. Gabriel Marcel, filósofo francês, assim distingue o problema do mistério: O problema é algo que eu encontro, que impede o caminho. Ele está totalmente diante de mim. Ao contrário, o mistério é algo em que me encontro engajado. O problema está do lado do TER do verificável, e o mistério do lado do SER do inverificável. Na história recente pode-se constatar que por onde passa ciência o mistério se transforma em problema. E a morte vem recebendo o estatuto de problema sendo ele em si um mistério. E aí pode residir do ponto de vista do pensamento filosófico um outro problema: a degradação da morte de mistério em problema. Se o "mistério me envolve" ele se torna como um clima. E há questões e respostas que ocorrem em um clima e não nas distinções que possam satisfazer a clareza da lógica da razão e do direito. As questões derradeiras presentes no morrer são questões daquele tipo. Em um clima de mistério, até um gesto que, visto do exterior, poderia parecer como eutanásia ativa seria justificado, permitindo ao moribundo conservar sua dignidade pessoal plena até o último momento. Respeitado o clima de mistério é bem possível que a vontade autêntica do doente seja respeitada, pois, é este clima que propiciará à essa vontade manifestar-se em sua verdade. Afinal porquê exigir que todas as situações, sobretudo as situações limites, sejam plenamente nítidas quando sabemos que a ambiguidade e a contradição são características fundamentais da condição humana? Para Camus ninguém morre por causa de um teorema euclidiano. Galileu que considerava como importante uma verdade científica, a abjurou com toda tranquilidade desde o momento em que ela colocou sua vida em perigo. De fato, ele fez bem, pois, que decidir qual dois, a terra ou o sol, gira em torno um do outro, é indiferente, ou até uma questão banal. Para Camus o sentido da vida é a mais urgente das questões. O suicídio é uma questão metafísica de importância. Malraux, notável escritor francês afirmou: "Aquele que se mata corre atrás de uma imagem que ele se formou de si próprio; nunca ninguém se mata senão para existir". Uma vida sem morte seria incompleta, talvez impensável e até insuportável; só a morte, como ainda afirma Malraux, transforma nossa vida em destino. O morrer que cada um qual traz em si, perturba a afetividade, aliena a razão. A morte é o nada ou o quase nada que nenhuma ciência consegue apreender tanto no plano dos critérios quanto no plano das definições. Mesmo assim é sobre o nada que se voltam às angústias e que todas as energias parecem mobilizar-se para esconder sob os mais diversos "véus" ou até tentar suprimir fazendo de conta que ela passa ao longe. Os outros ... morrem! Onde podemos situar a morte? Em nenhuma parte e também em todo lugar. Enquanto uma "essência" não se pode situá-la em parte alguma, já que ela não é senão ruptura, fenda, simples transição de um antes e o depois, ser vivo e cadáver. Mas enquanto processo ela está em toda parte: o morrer inicia-se com o nascer, acelera-se com o envelhecimento. Se toda a relação com a morte assim como toda relação com a sexualidade é mediatizada na pluralidade das relações sociais, então a morte está presente em todos os níveis da vida cotidiana. Enquanto não estando em lugar algum a morte não tem o estatuto de objeto empírico: é um simples ponto intocável e sobre o qual o que se pode dizer, como acima afirmei, que está entre um antes, pensamos em um doente terminal, ou nas atitudes em face dos idosos, e um após, os rituais funerários, o culto aos ancestrais, o luto. A morte é um termo, uma ruptura. A morte em si não existe; no entanto, a realidade que se estende por debaixo do conceito toma formas as mais variadas. Temos a morte física, como queda na entropia existencial; a morte biológica expressa no cadáver; a morte genética ou a desprogramação programada que determina a duração de nossa vida; a morte espiritual; ou a morte psíquica, a do demente enclausurado em sua alienação; e as inúmeras faces da morte social, aquela provocada pelo encarceramento, o abandono no hospício, a psiquiatrização das questões mentais e espirituais, as aposentadorias, aquela dos milhares de excluídos que vivem à margem da sociedade. Um traço que perpassa todas essas figuras é a ideia de corte ou de ruptura: entre vivos e mortos a ruptura física e social. O esquizofrênico em ruptura com o mundo é alienado no hospital psiquiátrico, etc.. A morte em si não significa nada. Como citado acima só há morte porque há vida. E só concebemos, imaginamos e representamos a morte em contraposição à vida, como sua negação: a morte é a "não mais vida". Na tentativa de buscar um sentido ao fenômeno da morte poderíamos indagar se é possível falar de uma experiência da morte, do morrer. Diria que o homem como sujeito individual não poderia fazer experiência de sua própria morte. Afinal como saberíamos? Mas o que ocorre no morrer? é o homem quem morre e leva consigo todas a suas experiências ou o corpo? Para a concepção dualista cujo defensor mais notável foi Platão, a morte significa a morte do corpo e consequente purificação da alma. Para uma das concepções contemporâneas da antropologia filosófica que tenta ultrapassar tal dualismo, afirmando o existir como a relação dialética de corporeidade e consciência, ou da facticidade e transcendência, a morte representaria a morte do corpo. Após a morte, a corporeidade se ausenta, o homem deixa de existir. Posso constatar a morte de outro, posso acompanhá-lo em seu morrer. Mas poderia eu apreender o sentido ontológico do morrer? A morte se me apresenta como um fato metafísico pela morte do outro. Posso experienciar o evento acontecer no outro, simpaticamente, posso talvez sentir com ele. E, de repente, tudo termina, e continuo a experimentar a ausência misteriosa que se faz presente em um corpo inerte. A morte é a presença ausente, o morto, agora o cadáver é a ausência presente daquele que outrora fora. François Mauriac em seu Diário (1935) escreveu: "na terrível constatação que provamos diante do espetáculo de uma morte, ocorre uma sensação de logro, aquele que amamos está ali e não está mais". Naquele momento a morte se nos apresenta como o paroxismo do não sentido. A morte é o próprio signo da ausência fatal, definitiva dos assuntos humanos, H.Arendt. A experiência da morte do outro não oferece nenhum sinal, a meu ver, de uma continuidade, de um novo estado. Lembrança, logro, desaparecimento. Simone de Beauvoir assim se manifesta sobre a morte de seu companheiro J.P.Sartre: "Sua morte nos separa. Minha morte não nos reunirá. É assim; já é muito bonito que nossas vidas tenham podido estar em acordo tão longo tempo". La cérimonie des adieux. Na mesma época outro filósofo existencialista Marcel afirmou: "Amar alguém é dizer-lhe: tu não morrerás". O que pode eventualmente ocorrer após a morte é dado somente pela promessa vinculada a um ato de crença que aspira a um reencontro com o outro amado que acaba de morrer. Uma crença que nos promete que ouviremos novamente sua palavra em condições que desconhecemos ou sequer pressentimos. No entanto, creio que a experiência do morrer de pessoa amada não poderia nem destruir nem confirmar tal promessa. A experiência da morte do outro se dá por participação. Ambos, antes unidos pelo elo da comunidade, separam-se pela ruptura. A experiência da morte em sua crueza se revela como um sentimento de infidelidade trágica de sua parte, assim como existe certa experiência de morte no ressentimento diante da infidelidade entre vivos, no sentimos traídos pelo ausente. Passo a apresentar breves observações sobre uma questão que reputo de extrema atualidade no debate filosófico da bioética. A afirmação acima de que a vida e morte são dois aspectos de um mesmo processo, de uma mesma condição, a do ser consciente. A morte é parte integral da vida. Assim sendo, é razoável supor-se que a morte deve ter uma proteção, prevista no ordenamento jurídico. É consensual a aceitação, aliás inscrita na "Declaração dos Direitos Humanos", de que todo ser humano deve ser tratado humanamente. Isso implica que cada ser humano, sem distinção de sexo, idade, cor, língua, religião, origem étnica ou social, possui uma dignidade inalienável e intocável e estas definições podem e devem ser estendidas à todos os seres. E como consequência, espera-se que cada um, indivíduo ou o Estado, se veja obrigado a honrar essa dignidade e garantir sua efetiva proteção. Pode-se, prosseguindo na argumentação, esperar que o direito de morrer com dignidade deva também ser tão bem protegido como outro direito vinculado ao viver. Assim, interdições ditadas pelo Estado, que causassem uma morte dolorosa e mesmo atrozes a qualquer ser, deveriam ser consideradas como um ultraje contra a dignidade. Se a morte faz parte da vida, o direito de morrer significa o direito de viver os instantes finais com dignidade. As questões relacionadas à terminalidade da vida, ao tratamento de pacientes terminais e/ou qualquer ser têm sido tratadas tradicionalmente pela sociedade e quanto à dimensão ética dessas questões tem-se buscado um fundamento e argumentos, de modo proeminente, em correntes doutrinárias religiosas. Hoje, no entanto, não se pode mais ignorar o processo crescente de secularização. "Evoluímos numa sociedade pluralista, tanto religiosa, como política, moral e filosoficamente, onde cada um conta apenas com a força da sua palavra", Ricoeur-1993 p. 71. As crenças religiosas já não constituem o bem comum. São apenas mais uma palavra que deve fazer-se ouvir no meio de outras. O reconhecimento do pluralismo cultural e ideológico nos leva a colocar as questões em outros termos, aceitando a diferença das perspectivas conflitantes. Não se concebe mais um discurso único, hegemônico e dogmático. No que diz respeito ao denominado "direito de morrer", há consenso, hoje em muitas sociedades, sobre a questão da denominada "eutanásia passiva" baseada no princípio da "morte com dignidade". Como todos sabemos, os avanços nas ciências biomédicas permitem prolongar nossa vida. E isso, sem dúvida, é extraordinário. Esse prolongamento é, ao meu ver, no entanto, como uma faca de dois gumes. Pode provocar o prolongamento do sofrimento e da dor intolerável; e viver quando a situação do doente é tomada pela dor e pelo sofrimento insuportável não é um atentado à sua dignidade? O sofrimento dignifica o indivíduo, afirmam muitos. Essa ideia, platônica, retomada pelo cristianismo pode, de um outro ponto de vista, ser considerada doentia. E como saber o limite do tolerável em matéria de sofrimento? Quem define? O médico? O religioso? Ambos espectadores ignorantes! Quem poderá dizer o quanto de sofrimento deve suportar uma pessoa até que sua morte, abreviada, possa ser julgada aceitável? Seria, por acaso, um ato heroico e admirável morrer de "modo natural" ao término de um longo combate travado pela medicina de ponta com tecnologia complexa e invasiva? Todos aceitamos que o ser humano tem o direito de viver em dignidade. Porque negar-lhe, de modo reacionário, o poder de decidir sobre sua morte com dignidade e que seja auxiliado nessa escolha? Porque aqueles que detêm o poder de controle impede o exercício de um direito? O polêmico e eminente teólogo católico suíço Hans Küng, que há muito tempo está em rota de colisão com o magistério eclesiástico, publica com outros autores um livro interessante cujo título é, em edição inglesa, "Dying with dignity; a plea for personal dignity". Considero particularmente interessante e decisivo para o nosso debate seguir, em suas grandes linhas, a argumentação desse pensador. Em diversos países já está acolhido na jurisprudência o princípio denominado princípio de "diretrizes antecipadas", segundo o qual se reconhece a uma pessoa o direito de expressar antecipadamente a própria vontade a respeito da suspensão de terapias de suporte vital quando se encontra em situações médicas particularmente graves e bem definidas como, por exemplo, o estado vegetativo permanente. Hans Küng advoga a extensão desse princípio afirmando fortemente o direito da pessoa humana à escolha livre em todas as situações que se referem à vida e à morte. Defende, portanto, não só a suspensão da terapia de sustentação vital com o pedido do paciente, eutanásia passiva, mas também a interrupção ativa da vida do doente terminal a seu pedido, eutanásia ativa. A sua argumentação se sustenta em dois tipos de consideração. A primeira de ordem ética. Considera-se que há consenso entre médicos, juristas e bioeticistas sobre a legitimidade moral da eutanásia passiva, vale dizer, "deixar o doente morrer de morte natural"; percebe-se, por outro lado, que o limite entre omissão e ação, eutanásia passiva e eutanásia ativa, torna-se cada vez mais fluido e tênue, justamente por causa dos avanços consideráveis na tecnologia científica da biomédica. Por exemplo, interromper a ventilação artificial de um paciente incapaz de respiração autônoma é omissão ou ação? Se se admite isso, pode-se aceitar a possibilidade de se considerar justificável a eutanásia ativa. Küng, desenvolve outro argumento, de ordem ético teológica. Retoma a "Declaração das Religiões para uma Ética Global" aprovada no Parlamento das Religiões Mundiais, realizada em Chicago de 1993. Nesse documento, confronta a norma "não matarás", comum a todas as religiões, contrapondo seu lado positivo: "respeita todas as vidas". Embora o princípio conserve um valor incondicionado, Küng observa que "estamos em um tempo de mutações velozes de valores e normas", fato admitido até por teólogos e moralistas conservadores, devido às conquistas inauditas e formidáveis da tecnologia avançada na biologia e na medicina. Esses mesmos teólogos conservadores, segundo Küng, após terem combatido por longo tempo a ideia e o projeto de planejamento de familiar no controle da natalidade, acabaram por aceitá-la. Deus atribuiu o início da vida humana à responsabilidade do homem. Do mesmo modo, afirma Küng, é oportuno admitir-se que, também o fim da vida humana, em vista dos novos contextos da medicina contemporânea, possa ser posto por Deus sob a responsabilidade do homem. Assim este, responsável de seu agir e de sua vida, assume igualmente a responsabilidade pela sua morte. Na realidade, hoje o processo de morrer pode prolongar-se pela intervenção da tecnologia médica. Como vimos isso pode significar extensão do sofrimento do doente. Quem deseja lutar até o último instante, exerce um direito e deve ser respeitado e auxiliado. Porém esse direito não deve transformar-se em dever. "O direito à vida, afirma Küng, não equivale a uma coerção em viver". E mais, contra a afirmação usual de teólogos moralistas conservadores segundo a qual o abandono prematuro da vida é um "não" do homem a um "sim" de Deus, tendo sido suposto que a vida é um dom de Deus e que o homem não pode dela dispor; ou então, é um crime contra a vontade de Deus. Küng rebate afirmando que tais argumentos se fundam numa falsa imagem de Deus, embasada em algumas passagens bíblicas escolhidas de modo parcial e interpretadas literalmente. O teólogo declara-se, ao contrário, a favor de uma imagem de Deus como o "Pai dos frágeis, dos sofredores, dos perdidos... o Deus solidário da Aliança, que deseja ver no homem, feito à sua imagem e semelhança, um parceiro livre e responsável". E proclama, assim, uma "terceira via teológica e cristãmente responsável entre um libertinismo anti-religioso e irresponsável, que afirma o direito ilimitado ao suicídio, e um rigorismo reacionário sem compaixão, segundo o qual também aquilo que é insuportável deve ser aceito como dom de Deus". Tais posições defendidas por um teólogo de inquestionável competência e autoridade reconhecida mundialmente, mesmo que se dirijam a espíritos religiosos, são de particular pertinência em nossa atual situação de reivindicação pelo respeito à autodeterminação e dignidade humanas, sobretudo, na situação próxima à morte. E muito mais, são argumentos racionais em prol do esforço em rebater de modo racional todo preconceito de ordem ideológico religiosa que tenha pretensão de impor suas normas definidas como universais e necessárias. Qualquer cidadão tem o direito de praticar sua religião, segundo os cânones que marcam sua igreja. Agora, este mesmo cidadão não pode impor suas crenças ao resto da sociedade, tal como as igrejas desejam. As igrejas se aproximam do estado laico de forma perigosa e com uma avidez promiscua que envergonham os mais santos, buscam ter uma relação privilegiada com o estado, tanto durante os períodos ditatoriais como nos escassos períodos democráticos que o Brasil teve em sua história. As Igrejas brasileiras não são um instrumento democrático, senão antidemocrático, posto que não aceita que suas crenças são particulares, ou seja, deveriam afetar apenas seus crentes, e não universais, ou seja, que se apliquem a toda à população. E as manifestações ultrarreacionárias das igrejas brasileiras que foi, durante a ditadura e outros tempos, nunca aceitou que suas crenças e sanções não devem transformar-se em políticas públicas em um sistema democrático ao contrário, é de uma enorme insensibilidade democrática, além de uma grande crueldade e inumanidade. Negar o direito de morrer sem dor e com dignidade às pessoas como consequência de um mandato de seu Deus é delegar a governança de um país a um poder terreno não democrático que utiliza um poder supostamente divino, que ninguém elegeu, para controlar a população. Tem sido um grave erro o excessivo respeito e docilidade mostrados pelos partidos às imposições de um poder fático que provocou tantos danos e continua danando a população, e tudo isso em nome de seu Deus. O sentido da morte insere-se no sentido da vida. O princípio é a vida. A morte nos toca, nos apela. O morrer é um ato humano, da condição humana. As representações da morte nas diversas culturas a identificam com a própria angústia. Daí a exorcização e mais recentemente a banalização, violências de toda ordem. Penso ser relevante reintroduzir o debate sobre a morte em termos críticos e racionais, transcendendo todo particularismo do discurso único, dogmático e moralizador de ideologias conservadoras e reacionárias. A morte é sim um fenômeno cujo significado tem sua repercussão na dimensão social; não se pode, no entanto, reduzi-la a um dos aspectos. Encaro como urgente a indagação crítica na bioética sobre a preocupação plena de todas as consequências da Declaração Universal dos Direitos Humanos: a dignidade e a integridade da pessoa humana, sujeito de deveres e direitos. Assim ao homem cabe tomar sobre si a responsabilidade do viver e do morrer.

Em memória ao meu velho pai:
Benedito do Nascimento - Selá

Em memória ao meu Velho, amigo e companheiro:
Carlos Alberto Schmidt – Namaste

Guguamany susuaguany selàà, madi madi madi…selàà.